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Decantar ou não decantar, eis a questão
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Decantar ou não decantar, eis a questão

Humberto LisboaPor Humberto Lisboa
07 de agosto de 20263 min de leitura4 visualizações

Poucos temas no mundo do vinho geram tantas dúvidas quanto a decantação. Há quem acredite que todo vinho deve ser decantado. Outros defendem exatamente o contrário. Como quase tudo no universo do vinho, a resposta é simples: depende do vinho e do objetivo.

A primeira pergunta que devemos fazer não é se devemos decantar, mas por que queremos decantar.

Existem, basicamente, duas finalidades completamente diferentes.

A primeira é separar os sedimentos, algo comum em vinhos mais antigos. A segunda é promover uma oxigenação controlada, permitindo que vinhos jovens expressem melhor seus aromas e sua estrutura.


Vinhos antigos: delicadeza acima de tudo

Quando um vinho ultrapassa cerca de dez anos de garrafa — embora isso dependa muito da qualidade do vinho e de seu potencial de guarda — é comum que ele apresente depósitos naturais no fundo da garrafa. Esses cristais e pigmentos são resultado da evolução natural do vinho e não representam qualquer defeito.

Nesse caso, a decantação tem um objetivo muito específico: separar o líquido limpo dos sedimentos.

O procedimento deve ser feito lentamente, mantendo a garrafa em posição vertical por algumas horas antes do serviço e vertendo o vinho cuidadosamente para o decanter, interrompendo o processo assim que os sedimentos se aproximarem do gargalo.

Entretanto, existe um detalhe importante.

Vinhos muito antigos são extremamente sensíveis ao oxigênio. Um exemplar de 20, 30 ou 40 anos pode atingir seu auge poucos minutos após aberto e, em seguida, começar rapidamente a perder intensidade aromática e frescor.

Por isso, nesses casos, a decantação deve ser breve e cuidadosa.


Vinhos jovens: abrir espaço para o vinho respirar

Nos vinhos jovens acontece exatamente o contrário.

Tintos estruturados, ricos em taninos e elaborados para longa guarda normalmente chegam ao consumidor ainda bastante fechados. Seus aromas permanecem presos e sua estrutura pode parecer excessivamente rígida.

Ao serem decantados, ocorre uma maior exposição ao oxigênio, acelerando parte do processo natural de evolução.

O resultado costuma ser bastante perceptível: aromas mais intensos, maior expressão da fruta, taninos mais macios, melhor integração entre álcool, acidez e madeira e sensação geral de maior equilíbrio.

Em muitos casos, trinta minutos a uma hora de decantação já transformam completamente a experiência.


E os vinhos brancos?

Existe um mito de que vinhos brancos nunca devem ser decantados.

Isso não é verdade.

A maioria dos brancos leves, aromáticos e jovens realmente não necessita desse procedimento. Sua principal característica é justamente o frescor e a delicadeza.

Entretanto, grandes brancos elaborados com estágio em barrica, fermentação sobre borras (sur lie) ou longo potencial de envelhecimento podem se beneficiar bastante de uma oxigenação moderada.

Grandes Chardonnay da Borgonha, alguns Riesling envelhecidos, Chenin Blanc, Semillon e diversos brancos portugueses demonstram enorme ganho de complexidade após alguns minutos no decanter.


Então, devo ou não devo decantar?

Humberto Hamlet

A resposta continua sendo: depende.

Se o vinho for antigo, a decantação serve principalmente para separar os sedimentos, sempre com extrema delicadeza.

Se o vinho for jovem, especialmente quando estruturado e concentrado, a decantação pode revelar aromas, suavizar taninos e tornar a degustação muito mais prazerosa.

Mais do que uma tradição elegante, a decantação é uma ferramenta de serviço.

Quando utilizada corretamente, ela não muda apenas a aparência do ritual. Ela muda, de fato, a maneira como percebemos o vinho na taça.

E talvez seja exatamente essa a grande beleza do vinho: entender que não existem regras absolutas, mas sim conhecimento suficiente para fazer a escolha certa em cada garrafa.

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Humberto Lisboa

Publicado por

Humberto Lisboa

Curador de Alimentos, Bebidas e Epicurismo

@humberto_lisboa_leite

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