Entre 1995 e 1997, trabalhei na área de importação de uma das maiores fabricantes de elevadores e escadas rolantes do mundo. Embora minha atividade estivesse ligada à indústria, minha paixão pelo vinho já vinha de muitos anos.
Minha rotina se dividia entre as fábricas da empresa em Berlim e Stadthagen, na Baixa Saxônia, além de visitas a fornecedores em alguns países da Europa. França, Espanha, Itália, Bélgica, Finlândia e Eslovênia faziam parte do meu roteiro profissional.
Durante a semana eu trabalhava para a empresa. Nos finais de semana, trabalhava para mim. Aproveitava cada oportunidade para conhecer vinícolas, conversar com produtores e aprender mais sobre vinho e gastronomia.
Foi durante um inverno alemão, entre dezembro e janeiro, que tudo aconteceu.
Em um jantar com colegas de trabalho alemães, provei meu primeiro Eiswein. A intensidade daquele vinho e o equilíbrio entre doçura e acidez despertaram minha curiosidade. Eu queria entender como ele era produzido.
Na madrugada seguinte disponível, deixei Stadthagen e percorri cerca de 400 quilômetros até Bernkastel-Kues, no coração da região da Mosel, onde está um dos vinhedos mais famosos do mundo: o Bernkasteler Doctor.
Quando cheguei, a colheita já havia terminado. As uvas congeladas já estavam na vinícola sendo prensadas, exatamente como manda a tradição. Foi ali que compreendi a verdadeira essência do vinho do gelo.
O que torna o Eiswein tão especial
O Eiswein (que é um vinho branco), depende exclusivamente da natureza. As uvas permanecem na videira até o inverno e só podem ser colhidas quando congelam naturalmente, geralmente a temperaturas iguais ou inferiores a -7 °C. A colheita acontece durante a madrugada para preservar o gelo presente nos cachos.
Na prensagem, a água permanece congelada e apenas um mosto extremamente concentrado é extraído. O resultado é um vinho de grande intensidade aromática, elevada concentração de açúcar natural e uma acidez impressionante, responsável pelo equilíbrio que tornou o Eiswein famoso em todo o mundo.
O mais fascinante é que ele nem sempre pode ser produzido. Se o frio não chega na intensidade necessária, simplesmente não existe Eiswein naquela safra.
Além da Alemanha
A Alemanha é sua grande referência histórica, especialmente nas regiões da Mosel, Rheingau e Nahe. Hoje, o Canadá também produz exemplares extraordinários, seguido por Áustria, Luxemburgo e algumas regiões dos Estados Unidos.

Esta fotografia analógica antiga passada no scanner, ( feita no tripé com minha também companheira OLYMPUS OM2 com uma 50tinha Zuiko 1:1.8), define a delícia do caminho até o Mosel. A companheira BMW 318, a Estrada (autobahn), o céu carregado do inverno alemão e o cenário da região do Mosel mostram um pouco do que vivi naquele período. Sempre que a observo, volto àquele momento em que a curiosidade falou mais alto do que o conforto de permanecer na fábrica durante o fim de semana.
Conclusão
Aquela viagem me ensinou muito mais do que como nasce um grande vinho. Ela me mostrou que o conhecimento exige curiosidade, dedicação e disposição para percorrer centenas de quilômetros e até cruzar fronteiras, em busca de uma resposta.
Hoje, quando provo um grande Eiswein, volto, por alguns instantes, àquela fria madrugada na Alemanha. E lembro que, durante a semana, eu trabalhava duro para a empresa. Nos finais de semana, trabalhava mais ainda para o meu maior patrimônio: o conhecimento.




